terça-feira, agosto 19, 2014

Terapeutizando

Nessas minhas andanças pela internet descobri alguns blogs de garotas que desabafam sobre a vida, despretensiosamente, como eu faço por aqui.
Um delas é bem famosa, já escreveu livros, tem blog de humor super ultra acessado, mas vive reclamando que a vida é uma droga, que não fez nada ao longo dos seus sei lá, 30 e alguns anos, que está fadada ao fracasso, que todo mundo a odeia, que ela odeia todo mundo, que a família é uma merda, que o trabalho dá nojo, que os amigos não são tão amigos assim, que o corpo dela é horrível, que a cara também é horrível, que as cidades em que viveu são mal planejadas, que tá frio demais, que tá quente demais, que todo mundo a chama de grossa, que não tem paciência pras pessoas e mais uma infinidade de coisas que, só de pensar em listar, me dá dor de cabeça.
A outra não é nada famosa. Uma desconhecida aleatória, mas cercada de amigos e boas pessoas. A vida dela parece um martírio. Tem uma família ok, uma rotina ok, amigos ok, mora numa cidade ok, têm relacionamentos ok e que ser ok é péssimo. Não sabe lidar com fato de ter mais de trinta anos e não conseguir controlar alguns sentimentos e fica triste quando a chamam de rabugenta, mesmo sabendo que é rabugenta por pura opção, e não por falta de.
Essas duas garotas me lembraram uma terceira pessoa que convivi durante anos da minha vida e que era uma mistura de ambas. Pra resumir a vida dela: nada nunca tá bom, as pessoas são desprezíveis e os homens deveriam morrer porque nenhum quer ficar com ela, mesmo ela sendo uma pessoa linda, incrível, inteligente, que já morou em vários lugares do mundo, fala vários idiomas e é super bem sucedida e independente. O mundo é injusto, só ela tá certa e todos devem morrer por não reconhecer o quão incrível ela é.
Parece que as três estão aprisionadas em um poço de amargura, sendo intoxicadas diariamente por aquela água podre. Esse ângulo sob o qual elas observam a vida me dá claustrofobia e uma vontade imensa de chorar. Juro, eu sinto quase uma dor física por elas. E não porque sou uma mulher sensível e porque me toco pelas dores alheias, mas porque todas já passaram dos 30 anos e estão jogando a melhor fase da vida no lixo, preocupando-se apenas em reclamar de tudo o que as cerca, inclusive delas mesmas, ao invés de, sei lá, tentar baixar um pouco essa vibe negativa, tentar não levar tão a sério as coisas idiotas que acontecem na vida. 
Eu sei que é esquisitíssimo eu vir aqui pra falar de pessoas que eu não conheço, que eu não convivo, e que nem sonham com a minha existência, como se eu fosse uma terapeuta com muita propriedade de julgamento. Me sinto, na real, uma grande escrota em vir aqui e apontar o dedo na cara delas (ou melhor, nas costas delas, já que elas nem sonham que eu tô escrevendo isso aqui justamente porque não me conhecem) acusando-as de estar vivendo uma vida de merda e que tá tudo errado e que elas precisam mudar e fazer diferente porque tá errado e fim.
Quem sou eu na noite pra dizer se elas tão certas ou erradas, né?
Mas olha, me dá um desespero tão grande, uma claustrofobia tão absurda quando leio o que elas escrevem que tenho vontade de esbofeteá-las na cara e dizer: pelo amor de Odin, mulher: PÁRA DE RECLAMAR DE TUDO.
Não é possível que NADA na vida delas tenha sentido. Que nada nem ninguém as agrade. 
Que tristeza ver e viver a vida sob essa lente totalmente distorcida.
Tem tanta coisa acontecendo no mundo, sabe? Tem tanta coisa boa por aí, tem tanta coisa boa dentro delas, e elas nem fazem ideia.
Que tristeza vê-las perdendo um tempo tão precioso da vida reclamando de tudo, sem mover uma palha pra fazer diferente. Contentando-se apenas em desdenhar de tudo e todos.
Mais uma vez, quem sou eu pra julgar o que elas têm feio da vida? A vida é delas e elas fazem o que quiserem. Mas sei lá, eu queria que elas pudessem ver o mundo do jeito que eu o vejo: cheio de defeitos adoráveis e pronto pra ser explorado e amado e sentido e vivido...
Queria mesmo, de verdade, emprestar meus olhos pra elas por um dia, pra que elas pudessem ver o que tem aqui fora do poço. Quem sabe isso as despertaria pra uma mudança.
Mas né? Quem é que precisa mudar pra agradar os outros?
Ah se elas soubessem que isso as agradaria muito mais do que aos outros...ah se elas soubessem o que realmente é se agradar...

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